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Português, a língua que os timorenses já começaram a namorar

Português, a língua que os timorenses já começaram a namorar

Passados 17 anos de independência, Timor-Leste regista 30,8% falantes de português. Apesar da evolução do número de timorenses que fala português, ainda se sentem dificuldades na difusão da língua. Pede-se mais investimento.

Aproximamo-nos de um grupo de crianças, que não terão mais de 9 anos. Não falam português em casa, mas ali, no recinto da escola, comunicam e brincam em língua portuguesa. Não têm qualquer vergonha das câmaras da televisão: “Vamos dizer o quê?”, questiona uma menina. Um rapaz responde: “Está bem. Vamos dizer ‘Olá! Nós somos alunos da Escola Portuguesa Ruy Cinatti de Díli”, dizem, virando-nos depois as costas para brincarem, em português, que nas palavras do escritor moçambicano Mia Couto, é “a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar”.

Para Mia Couto, a língua portuguesa fazia os moçambicanos mais Moçambique. Também para Ramos Horta, o português torna os timorenses mais Timor-Leste. O diplomata considera que, a par da religião, as duas línguas oficiais são as fundações da identidade timorense. “O pilar mais importante da identidade de um país vem da língua. Aí, Timor-Leste têm duas línguas oficiais o tétum, que já é cada vez mais influenciado pelo português, e o português propriamente dito”, diz.

Segundo os dados dos Censos de 2015, cerca de 30.8% de timorenses falam português. Este valor mostra uma subida significativa face a 2002, ano em que se  registavam apenas 5% de falantes da língua. O ex-Presidente da República timorense destaca também o número crescente de falantes em português.“Sem dúvida que hoje o português é mais falado do que no tempo português. Em 1974, menos de 10%, talvez 5% de timorenses, é que falavam português. Hoje, cerca de 30% de timorenses falam português, número este que atesta o crescimento de falantes em português”, afirma. Fátima Marques, formadora portuguesa do Consultório da Língua para Jornalistas (CLJ), chegou a Timor-Leste em 2002 e sente igualmente a evolução do português no país. A professora justifica estes progressos com a vontade dos timorenses em aprender e falar a língua. “Há diferenças ao nível da vontade de aprender. Lembro-me que, quando cheguei, em 2002, os alunos sentiam muitas dificuldades em se expressarem. Em casa, não conviviam com o português e, na escola, a aprendizagem desta língua limitava-se a duas horas semanais. Ao olhar para trás, verifico que essa vontade aumentou. A língua portuguesa já deixou de ser aquela língua que causava estranheza e de difícil aprendizagem para se tornar numa língua que pode ser uma mais-valia em termos profissionais”, diz.

Ramos Horta destaca igualmente a importância do português para o desenvolvimento do tétum.“O tétum teve de evoluir rapidamente para fazer face às necessidades. Após a independência, foi buscar centenas de vocábulos da língua portuguesa, permitindo-lhe tornar-se mais funcional, rico e modernizado”, afirma. O mesmo defende a formadora Fátima Marques ao sublinhar que a língua tétum tem recorrido a vários empréstimos do português para se enriquecer. A aquisição de novos vocábulos constitui, segundo a formadora,  uma ferramenta valiosa para os falantes de tétum.

Para muitos, o inglês podia ser a chave do desenvolvimento económico para Timor-Leste. Ramos Horta rejeita, no entanto, esta ideia, afirmando que alguns países, muito embora tenham adotado o inglês como língua oficial, registam atualmente um índice económico e social inferior ao de Timor-Leste.“ Dizem que o inglês abriria as portas de Timor ao mundo. Deixem-me dizer que a Libéria é um país anglófono há mais de cem anos e, no entanto, regista um índice económico e social inferior ao de Timor-Leste. Ora se o inglês fosse a solução para os problemas, a Libéria devia ser agora equiparada a uma Singapura”, refere.

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Voltamos à Escola Portuguesa Ruy Cinatti, onde a subdiretora, Lisete Fortunato, recorda que, apesar de o português não ser a língua materna da maioria dos alunos, todos os conteúdos lecionados, do pré-escolar ao ensino secundário, integram o currículo português, acrescentando: “Na escola falamos única e exclusivamente o português, dos três anos ao décimo segundo ano. Tentamos também que nos intervalos os alunos falem apenas o português, o que nem sempre é possível. A nossa maior estratégia é, de facto, usar o português dentro do recinto escolar”. A subdiretora aponta ainda os principais problemas relativamente à aprendizagem da língua: “As maiores dificuldades residem na compreensão, interpretação de textos e também na expressão escrita. A solução passa por se fazer um trabalho contínuo. É algo que tem de ser feito continuamente. Não podemos querer resultados imediatos, tanto na leitura como na compreensão e interpretação de textos e também na escrita. É necessário trabalhar continuamente, quer aqui quer em casa”.

As dificuldades no processo na aprendizagem do português em Timor-Leste não se refletem apenas no ensino básico. Também se sentem no ensino superior. A professora e Chefe do Departamento de Língua Portuguesa da Universidade Nacional Timor Lorosa’e, Maria da Cunha, reconhece o pouco domínio do português. “O problema reside na falta de recursos, não só na nossa faculdade como em toda a universidade. Continuamos com lacunas ao nível do conhecimento da língua portuguesa. Necessitamos de mais formações. Talvez a esperança esteja nos nossos alunos que, mais tarde, nos vão substituir e ajudar a desenvolver a língua portuguesa’’, diz. A professora lamenta ainda o facto de os alunos que chegam à UNTL evidenciarem falta de conhecimentos básicos em língua portuguesa. “Alguns dos alunos que aqui chegam vêm sem preparação, com lacunas graves ao nível do português. Esta falta de conhecimentos básicos da língua dificulta a sua aprendizagem no nosso departamento”, conta.

Em Timor-Leste, a falta de hábitos de leitura, problema comum em todos os níveis de ensino, do básico ao superior, tem também dificultado a aprendizagem da língua portuguesa. Para contornar este problema, a Escola Portuguesa Ruy Cinatti tenta promover a leitura junto dos seus alunos. “Para combater a falta de hábitos de leitura, a escola desenvolve ao longo do ano letivo várias atividades de promoção, como a hora do conto e o concurso de leitura. Dos mais pequeninos, do pré-escolar, aos alunos do quarto ano do primeiro ciclo, eles são também convidados a levar livros para casa e a lerem-nos na companhia dos seus pais”, refere Lisete Fortunato.

Já a Professora universitária Maria Cunha mostra um certo desânimo perante a falta de meios para suprir esta lacuna, lembrando que a leitura é uma ferramenta poderosa para a aquisição de novos conhecimentos. Sugere, por isso, ao Ministério da Educação, Juventude e Desporto que desenvolva programas de incentivo à leitura. “É verdade que em Timor-Leste não há hábitos de leitura. É preciso, por isso, que o Ministério da Educação implemente atividades, que disponibilize meios aos professores para que possam criar hábitos de leitura nos seus alunos. Não se aprende uma língua só nas salas de aula”, diz.

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Com ou sem leitura, muitos timorenses dizem que aprender português é difícil. Para Aniceto Alberto Carlos, aluno do quatro semestre da licenciatura de Língua Portuguesa da UNTL, saber português não é uma tarefa impossível. “Apesar da complexidade da gramática da língua portuguesa, não é motivo para se achar que a língua portuguesa é difícil. Para mim, é possível contrariar esta dificuldade. Basta querermos”. E sugere: “Quero aconselhar os jovens timorenses a aprenderem a língua portuguesa, porque a sua presença no país é muito importante para o desenvolvimento em todas as áreas no futuro”.

Para que a língua portuguesa evolua em Timor-Leste é, pois, imperioso que as instituições responsáveis apostem numa educação de qualidade. É o que defende o Nobel da Paz, que desafia Portugal e Timor-Leste a investirem mais nesta área. Destacando a qualidade dos Centros de Aprendizagem e Formação Escolar (CAFE), sugere o seu alargamento para os postos administrativos. “Um bom exemplo de ensino de qualidade têm sido os CAFE. São escolas timorenses, com o currículo timorense, mas com professores altamente qualificados vindos de Portugal. Contudo, acho que se deveria estender este projeto a todos os postos administrativos. Caso contrário, estaremos a sacrificar toda uma geração”, afirma. Apesar do esforço português, o Nobel da Paz aponta críticas a Portugal: “O projeto CAFE traz qualidade ao nosso ensino, mas subsistem problemas de organização, nomeadamente por parte de Portugal que não tem gerido a questão do recrutamento dos professores. Estes têm chegado muito tarde, já com as aulas a decorrer”.

No entanto, não é apenas a escola que contribui para a divulgação de uma língua. A comunicação social tem também um papel importante na sua difusão. Ramos Horta refere, a este propósito, que, embora a política de língua do Estado timorense seja consistente, é visível  uma inconsistência na política de promoção do português. Segundo o diplomata, falta criatividade à RTP Internacional. “Infelizmente o canal português é pouco atrativo, não cativa os telespetadores. Ao contrário do canal português, a televisão brasileira transmite programas atrativos, mais alegre. As televisões portuguesas de uma maneira geral só conseguem cativar os mais velhinhos. Se não soubermos usar a televisão de forma a captar os interesses e atenção das crianças, torna-se mais difícil a disseminação desta língua”, refere.

O Consultório da Língua para Jornalistas (CLJ), um projeto que resulta da parceria entre a Secretaria de Estado para a Comunicação Social e o Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, pretende melhorar as competências linguísticas de português dos jornalistas. A formadora Fátima Marques lembra que, apesar de no início do projeto os profissionais de comunicação social sentirem muitas dificuldades no uso do português, sobretudo na expressão escrita, existe agora uma maior motivação para aprender a língua. “O projeto Consultório da Língua para Jornalistas surgiu da necessidade de dotar os jornalistas timorenses de competências linguísticas na área da língua portuguesa. Tem sido um percurso interessante. Embora ainda sintamos dificuldades no que toca à aprendizagem do português, verificamos que a motivação é maior. Os conteúdos que estão a ser elaborados e a saírem na comunicação social já denotam evolução em termos de língua”, diz.

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Existe agora a consciência nos diferentes órgãos de comunicação social de que aprender português contribui para a melhoria da escrita em tétum. Foi, por isso, que o jornal Timor Post, um órgão privado que iniciou a publicação em 2002, enviou cerca de dez editores para os cursos de formação em língua portuguesa.Um deles foi o chefe de redação Carlos Malilaka de Jesus. “Apesar de a língua ser difícil, sinto que me trouxe vantagens, pois posso compreender os conteúdos de muitos documentos oficiais em português. O jornalista que não aprende português terá muitas dificuldades em entender e escrever notícias sobre acontecimentos oficiais”, defende.Também Ana Maria da Costa, jornalista e tradutora do Grupo Media Nacional (GMN) e formanda do CLJ, reconhece a importância da língua para quem trabalha como jornalista.“O motivo mais importante para um jornalista aprender o português é a relação direta com o seu trabalho diário”, refere.

Segundo Fátima Marques, apesar dos vários progressos verificados ao longo da formação, ainda existem lacunas. Defende, por isso, a continuidade da formação, para que os jornalistas possam evoluir, nomeadamente em áreas específicas.“Não podemos ainda falar num domínio perfeito da língua. Já houve evolução desde o início do projeto CLJ e sentimos uma maior motivação por parte dos jornalistas. Acreditamos que essa evolução será mais significativa se o projeto tiver continuidade, apostando em áreas mais específicas. Isto permitirá aos jornalistas uma melhor preparação linguística para enfrentar os desafios jornalísticos”, diz. Ana Maria da Costa, formanda do projeto, confirma os progressos na língua. “Estou a frequentar o nível B2 e sinto que evoluí bastante no uso da língua. No entanto, preciso de mais tempo para ampliar os meus conhecimentos linguísticos e poder usar a língua de forma adequada na minha profissão”, conta.

Ramos Horta insiste, por sua vez, num maior investimento nos media. “A comunicação social, sobretudo os meios audiovisuais são instrumentos vitais para promoção da cultura e de línguas. Por isso, é preciso que o nosso Governo disponibilize mais meios financeiros, materiais nas televisões com o compromisso de que as televisões produzam programas educativos pedagógicos bons. Para isso, poderiam realizar contratos com produtores portugueses. Alguns já estão cá. Conhecem Timor e são profissionais de media. Podem também contratar produtores brasileiros”, diz.

Embora a maioria dos timorenses ainda não fale português, são já visíveis progressos. Ainda são muitas as dificuldades, mas, enquanto houver jovens como o Aniceto Carlos, mantém-se a esperança de que um dia grande parte dos timorenses há de dominar o português. “Acho que é importantíssimo aprender português”, diz com convicção. Ainda que defenda que a língua portuguesa é complexa, também Carlos de Jesus acredita que este fator não impede a sua aprendizagem e diz: “Nós, que vivemos no tempo indonésio, tínhamos sempre o preconceito de que o português era uma língua muito difícil para aprendermos. No entanto, considero que não existem atualmente barreiras para aprender”. Para aprender o português, essa língua complexa com que os timorenses começaram a namorar. Oct

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