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Hábitos de leitura raros em Timor-Leste

Hábitos de leitura raros em Timor-Leste

É reconhecida a falta de hábitos de leitura em Timor-Leste. As famílias não promovem a leitura em casa. Nas escolas, faltam também bibliotecas, isto apesar da existência de um diploma ministerial de 2012 que prevê a sua criação e que não é aplicado. Os timorenses veem-se assim privados dos benefícios da leitura.

“Não leio, porque não gosto. Ler não é a minha atividade favorita. Gosto apenas de fazer contas”, diz com assertividade a aluna da Escola do Ensino Básico Filial do 1º e 2º ciclos de Rumbia, Naisila Araújo. Questionado sobre se lê, o funcionário da biblioteca do Centro Cultural Português, em Díli, Rui Boavida, responde, meio envergonhado e com hesitações: “Leio em média dois a três livros por ano. Depende também dos livros que chegam cá. Se um livro que acaba de chegar me despertar o interesse, leio-o logo”.

Duas pessoas, duas gerações. O bibliotecário do Centro Cultural Português na casa dos 40 anos e Naisila Araújo, que tem 12 anos e está a frequentar o quinto ano da escola de Rumbia. As respostas que ambos deram refletem a realidade da maioria dos timorenses de que não existem hábitos de leitura. O livro continua a ser um objeto raro na vida das crianças e dos adolescentes timorenses. A criação de hábitos de leitura implica incutir o gosto por essa atividade e o mais cedo possível. Contudo, as dificuldades socioeconómicas das famílias timorenses, as baixas qualificações e a pouca qualidade do ensino público tornam os hábitos de leitura raros.

A Chefe do Departamento da UNTL, Maria da Cunha, defende uma intervenção do Ministério da Educação, Juventude e Desporto junto dos estabelecimentos de ensino e dos professores para colmatar esta lacuna. “A falta de hábitos de leitura é transversal a todos os setores da sociedade timorense. É preciso que as entidades competentes, como o Ministério da Educação, disponibilizem meios para que os professores criem atividades que levem os estudantes a gostarem de ler”, sugere.

Os estudos dizem que quem lê desde bebé se torna um melhor aluno na escola. Sabe-se que a leitura promove o desenvolvimento pessoal e profissional e cria uma visão do mundo mais completa. Os livros permitem também conhecer novas culturas e emoções e estimulam a criatividade. É um processo de aprendizagem de novas palavras e de estruturas linguísticas, que melhora o pensamento e a expressão. Influencia não só o conhecimento de línguas como a compreensão de outras áreas, como a Matemática, Geografia, História ou Ciências.

Se pensarmos na pouca qualidade do ensino público em Timor-Leste, percebemos que a falta de hábitos de leitura afeta ainda mais o percurso escolar das crianças e jovens timorenses. Como tal, a leitura tem um papel fundamental no desenvolvimento das pessoas. Isso mesmo defende o linguista João Paulo Esperança: “Os livros são como janelas para o mundo. É muito importante que as pessoas leiam, porque nos transmite conhecimentos e nos ajuda a aprender a raciocinar e nos põe no lugar das outras pessoas”. O linguista diz ainda que, num mundo global, onde impera a era das novas tecnologias, a leitura assume um papel mais relevante na vida das pessoas, nomeadamente na mudança de atitudes e na forma de refletir. “A leitura é extremamente importante, particularmente no mundo atual, onde tudo se passa com muita rapidez, onde as pessoas dependem cada vez mais das novas tecnologias. Hoje em dia, falta tempo para a pessoa refletir sobre as coisas de forma profunda e a leitura ajuda-nos a encontrar essa forma de estar”, afirma.

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Também Laura, estudante da UNTL, destaca a importância de hábitos de leitura no sucesso profissional bem como na expansão do vocabulário, no desenvolvimento do raciocínio e na atualização de conhecimentos. “Para mim, a leitura é como um passaporte que nos permite viajar e conhecer novos mundos. Podemos aumentar a nossa sabedoria, alargando os nossos horizontes”, destaca. Beatriz Sarmento, estudante do Departamento de Língua Portuguesa da UNTL, considera também que os livros são uma ferramenta essencial para quem frequenta a universidade, contribuindo para os estudos. “A leitura é crucial para os estudantes universitários. Sem a leitura não sabemos para onde é que vamos”, diz.

A importância da leitura não se limita apenas a quem aprende mas igualmente a quem ensina. O professor Abílio da Conceição, coordenador da Escola Básica Filial do 1.º e 2.º Ciclos de Rumbia, em Díli, fala igualmente na importância dos livros. “Costumo ler. Ao meu lado, estão sempre livros. Sinto a necessidade de ler. Se não estiver a ler é como um medicamento que não tomo. Isto é a minha vida”, afirma. O professor mostra-se, contudo, muito preocupado com esta nova geração de jovens que “só se interessa pelo telemóvel e as redes sociais, em vez de se preocupar com os livros”. Salienta, por isso, a necessidade de se incutir nestes jovens a leitura para que aprendam mais e melhor.

Para João Paulo Esperança, as baixas qualificações dos professores e a falta de bibliotecas escolares são fatores que contribuem para que os alunos não consigam adquirir competências. “A leitura pode ajudar as crianças, se o sistema de ensino privilegiar hábitos de leitura. Caso contrário, os alunos sairão prejudicados”, afirma. E aponta uma solução. “Mesmo que os professores possuam pouca formação, os alunos podem aprender e adquirir conhecimento sobre variados temas, caso tenham acesso aos livros através de bibliotecas escolares ou municipais”, refere.

O diploma ministerial 07/2012, relativo à Rede de Bibliotecas Escolares de Timor-Leste, reconhece a importância da leitura e a necessidade da criação de bibliotecas: “O consenso geral de que a leitura constitui uma competência básica transversal que todas as crianças e jovens necessitam dominar para poderem aprender e construir a sua cidadania, convoca o Ministério da Educação a assumir a criação de uma Rede de Bibliotecas Escolares como uma prioridade da política educativa nacional”. Refere ainda que a criação de bibliotecas escolares deve ser executada em três anos. No entanto, passados sete anos, muitas escolas continuam sem bibliotecas. É o caso da Escola de Rumbia, em Díli. “Nós aqui não temos biblioteca. Para remediar esta questão, criamos um cantinho da leitura. No entanto, são poucos os alunos que frequentam este espaço e aqueles que o frequentam costumam destruir os livros. Temos livros que a embaixada portuguesa nos deu, mas infelizmente não são aproveitados pelos nossos alunos”, conta o diretor Abílio da Conceição.

Ao contrário da Escola Básica de Rumbia, a Escola Secundária 4 de Setembro de Díli dispõe de uma biblioteca. Apesar disso, não constitui uma mais-valia tanto para os professores como para os alunos, pois, como conta o professor António Costa, não há recursos que permitam aos alunos desenvolver conhecimentos e capacidade crítica. “Os nossos alunos não têm direito a levar para casa livros, porque muitas vezes os livros não são devolvidos ou vêm estragados. A nossa biblioteca dispõe de livros, mas não em quantidade suficiente. Por isso, organizamos sala por sala. Uma turma dirige-se à biblioteca onde são lidos excertos de um livro”, diz o professor António Costa.

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 Famílias que promovem a leitura

As escolas e as bibliotecas são importantes, mas a leitura deve começar na família. João Paulo Esperança tem uma família leitora. Apesar do pouco envolvimento das famílias na criação de hábitos de leitura, o casal luso-timorense criou, desde muito cedo, hábitos de leitura junto dos filhos. Assim, todas as noites, antes de adormecerem, tanto o pai como a mãe leem em voz alta pequenas histórias aos filhos. Os filhos João e Luís e a sobrinha Nela Cristina dizem gostar de ler livros de aventuras, lendas e também relacionados com Matemática. “Nós gostamos de ler livros como aventuras, romances e mistério. Adorei o Código da Vinci, o Nome da Rosa e livros sobre as descobertas, como Vasco da Gama que descobriu a Índia e muitos outros. Gostamos de ler, porque a nossa família é uma família leitora e a leitura é um dos nossos passatempos favoritos”, conta a sobrinha.

O linguista destaca os benefícios da leitura junto das crianças e a necessidade de incutir o gosto por essa atividade o mais cedo possível. “É essencial habituar as crianças desde pequenas à leitura. Elas vão associar a leitura dos livros ao amor entre pais e filhos”, diz. João Paulo considera importante que os pais incentivem os filhos a irem à biblioteca, quando não possuem livros em casa. “É importante incutir nas crianças o gosto pelos livros, incentivando-as a frequentar as bibliotecas e assim requisitar livros” diz.

Contudo, este cenário de uma família leitora é raro em Timor-Leste. Segundo Januário Gomes, professor universitário e fundador voluntário de uma biblioteca, os pais excluem a ideia de que a leitura devia começar na família. Pensam que cabe apenas às escolas garantir esta tarefa. “Infelizmente ainda não têm a noção da importância da leitura na vida das crianças, porque pensam que cabe aos professores garantirem esta tarefa ”, diz. João Paulo Esperança aponta como outros fatores para a falta de hábitos de leitura não só o facto de Timor-Leste ser um país de tradição oral, transmitindo o discurso oralmente entre as várias gerações como o das famílias não terem o hábito de frequentar uma biblioteca. “Eu acho que não existem hábitos de leitura no país, onde tradicionalmente a cultura é mais oral. Em Timor, particularmente nos meios rurais, essa tradição continua muito viva. No entanto, há uma falta de hábitos de leitura por parte das famílias. Os pais não têm livros em casa e não costumam ir à biblioteca para os adquirirem”, refere.

Remar contra a maré da falta de leitura

Há timorenses que lutam contra a falta de hábitos de leitura em Timor-Leste. É o caso de Januário Gomes e Celsa da Costa, que fundaram uma biblioteca comunitária, a “Bibliograça”, onde trabalham voluntariamente. O casal adotou este nome, porque “as pessoas podem desfrutar dos livros e ganharem conhecimento, sem gastar dinheiro”. No arranque do seu projeto, o casal transportava os livros no interior de uma carroça e visitava os vários bairros de Díli para então ler às crianças, criando um espaço de promoção da leitura. Agora, tudo mudou. Já dispõem de um espaço. No entanto, lamenta a falta de visitantes à “Bibliograça”. “Enquanto antes fazíamos chegar os livros às crianças de diversos bairros, agora, que temos um espaço próprio onde guardar os livros, recebemos poucas crianças. Entre duas a quatro pessoas”, lamenta. Januário justifica a escassez de visitantes com o facto de as famílias não incentivarem os filhos a irem à biblioteca. Celsa da Costa, a esposa, aponta outra condicionante, semelhante ao que se passa nas restantes bibliotecas localizadas por todo o território: a falta de um sistema de catalogação dos livros. “A biblioteca não tem ainda uma base de dados para o processo de requisição de livros”, refere.

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A biblioteca do Centro Cultural Português, em Díli, recebe em média diária de 30 a 35 pessoas e dispõe de equipamentos tecnológicos e de um sistema de catalogação. “Recebemos por dia, em média, entre 30 a 35 pessoas”, disse Rui Boavida funcionário da Biblioteca”. Segundo o bibliotecário, este é também um espaço de pesquisa e estudo. “Enquanto alguns pesquisam livros para os seus estudos, outros acedem à internet para consultar diversos conteúdos. Os livros mais procurados são os de língua portuguesa, manuais e também dicionários portugueses”, diz.

A internet e os hábitos de leitura

Nesta era das novas tecnologias, a internet assume um papel relevante na criação de hábitos de leitura. A internet no mundo atual é considerada pelos jovens estudantes como o segundo estabelecimento de ensino além da escola ou universidade. Para muitos estudantes, o conhecimento de que necessitam encontra-se na internet, à distância e velocidade de um clique, permitindo realizar atividades de pesquisa e tratamento de informação.

“Gosto de consultar a internet, porque posso aceder a qualquer assunto que me interessa. Quando tenho dúvidas, além de perguntar aos professores procuro também no Google informações importantes” diz Laura, aluna da UNTL. Para Beatriz Sarmento, a internet é uma das fontes que completa os seus estudos: “Sempre que tenho de efetuar um trabalho sobre um determinado tema, recorro com frequência ao Google para complementar ideias ou então procurar sinónimos de palavras, como o dicionário online.

Contudo, não parece ser essa a principal função das tecnologias para a esmagadora maioria dos jovens. Os telemóveis servem sobretudo para acesso às redes sociais e publicações com pouco conteúdo informativo. O professor Abílio da Conceição põe em causa os benefícios da era de novas tecnologias e considera que afasta os jovens dos livros. “Os jovens timorenses necessitam de ler mais, porque tenho constatado, nos últimos tempos, que os jovens estão constantemente agarrados ao telemóvel. Preocupam-se mais com os telemóveis. Usam-nos quer na rua, quer no seio familiar”, diz preocupado.

Embora leia pouco, Eliana, aluna do quinto ano da Escola de Rumbia, quer concretizar os seus sonhos através da leitura. “Tenho de ler muito e estudar mais, porque no futuro quero ser doutora” diz com convicção. (Oct)

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